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“Meu filho não tinha mais voz, morto não fala”

Por Sofia Mosqueira

Na última quarta-feira, dia 24, a Sala de Vidro se despediu da exposição “Po-éticas de Luto, Po-Éticas de Luta”, da performer Nina Caetano, professora do Departamento de Artes Cênicas, da Universidade Federal de Ouro Preto. 

A exposição contou com duas materialidades de ações performáticas da artista, “Espaço do Silêncio” e “Chorar os Filhos”. Os materiais, que tematizam tanto o feminicídio, como a dor de mães que perderam filhos vítimas do Estado, propõem uma reflexão sobre o luto e a luta no cotidiano dessas pessoas. 

A materialidade “Chorar os Filhos" surgiu em 2018, depois da morte de Marcus Vinicius, jovem de 14 anos baleado pela polícia durante uma ação na Vila do Pinheiro, na Maré, Zona Norte do Rio. Impactada pela imagem de Bruna Silva, carregando o uniforme de escola do filho ensanguentado, Nina Caetano iniciou o que hoje chama de mortalha, que consiste em uma vestimenta formada por panos onde foram escritos, ou bordados, relatos e depoimentos de mães que perderam seus filhos pela violência do Estado. 


O vestido, exposto sobre a terra, passou a ser bordado com o depoimento das mães | Foto: Sofia Mosqueira

O movimento, que Nina iniciou sozinha, se tornou um trabalho coletivo de mães ao redor de todo o Brasil que carregam o peso e a dor da luta por justiça. Hoje, o pano, que serve como vestido, é carregado pelas mães em incidências políticas que percorrem o país.

Kaká Silveira é mãe e luta até hoje pelo seu filho, dado como suicida em uma prisão em Belo Horizonte, em 2014, aos 31 anos. Convidada de Nina para participar da roda de conversa que aconteceu na estreia da exposição. Emocionada, Kaká contou ao público sobre o lançamento e a história do seu livro “Luta e Luto”. Segundo ela, a mortalha é o “manto das dores” que carrega uma luta de mais de 10 anos por justiça e ações do Estado, seu livro conta a sua história, a fim de ajudar outras mães que também passam por essa dor. 

Kaká diz que deixou o luto de lado para lutar. “Eu preferi escrever um livro de autoajuda, onde eu coloco aqui coisas que eu passei e para que as mães, que vão estar com esse livro em mãos, tenham uma referência para não viver o que eu vivi” disse na roda de conversa. Hoje em dia, participa também da Rede Mães de Luta, de Belo Horizonte, grupo que busca dar visibilidade política à atuação de mulheres cujos filhos ou familiares são vítimas da violência do Estado. 

Roda de conversa contou com participação do público da universidade e visitantes | Foto: Thiago Caldeira

A segunda parte da exposição contou com a ação “Espaço do silêncio”. Iniciada em 2013, retrata situações de feminicídio através de uma performance que conta com um lençol onde são pregadas cruzes e etiquetas, cada uma delas com o nome e contexto do feminicídio. Ao longo dos anos, o lençol, que era apenas um, se tornaram vários, que carregam os nomes e feminicídios de cada cidade onde eles passam. 

A partir dessas duas materialidades, Nina montou a exposição que contou também com um manifesto, que acompanha o “Espaço do silêncio” e um vídeo-palestra-performance “Queremos que o Estado pare de matar menino” produzido na pandemia com participação de mães que sofrem com a perda dos filhos pelo Estado. 

Pano exposto com as cruzes e etiquetas da materialidade “Espaço do silêncio” | Foto: Sofia Mosqueira

Durante a roda de conversa, Roberta Fróes, vice-reitora da UFOP falou sobre a importância de uma exposição como essa em espaços públicos para engajar a reflexão sobre esses temas. “Essa exposição traz, inicialmente, como se fosse um peso, mas não um peso no sentido assim ‘não, olha, eu não vou nem entrar ali’, é um peso para levar a reflexão. As pessoas estão sendo agredidas ao nosso lado e cadê a reação? [...]. isso tem que causar um constrangimento, tem que ser exposto nos lugares onde os abusadores estão, que é todo lugar, né? Então, assim, quando está em locais públicos, tem livre acesso, uma visibilidade, chama reflexão, e através dessa reflexão, desse constrangimento, tem que ter mudança” destacou.